segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sobre cabelo bom e cabelo ruim

A mãe (negra) leva seu filho de 5 anos (negro) ao psicólogo se queixando que ele anda muito triste ultimamente, chorando bastante pelos cantos e com baixa autoestima.

O garotinho não chegou a conhecer o seu pai biológico e convive com um padrasto (branco) desde os 8 meses idade.

Há pouco menos de um ano o casal teve uma filha. A garotinha nasceu branca.

A mãe se queixa que seu filho repete constantemente que "quer ser branco" e que é "um menino feio". Ela continua explicando: "O problema é que a minha filhinha nasceu branquinha, com cabelo bom, lisinho! Enquanto nós temos este cabelo ruim aqui (*pega em seu cabelo neste momento*), sabe?". Prossegue: "Eu sei que o preconceito está em todo lugar, sabe? Mas nunca fiquei sabendo de nada que alguém tenha falado com ele na escolinha ou algo do tipo! Não fiquei sabendo de nenhum insulto ou outras formas de preconceito.".

Conta também que na tentativa de agradar seu filho já tentou até fazer um "relaxamento" no cabelo dele, mas não obteve muito sucesso.

De uma maneira delicada tento chamar a atenção da mãe para o preconceito existente em seu próprio discurso: para ela, seu cabelo é aquele naturalmente considerado "ruim", "feio", enquanto o do branco é "liso", "bom".

Ligeiramente constrangida ela para, reflete por um instante e lembra de alguns momentos onde seu marido - na presença do garotinho - acariciava sua filha dizendo coisas como: "Olha que cabelinho liso mais lindo!".

Recém-nascida, a garotinha branca se transformou no centro das atenções em casa e roubou bastante um espaço que antes era ocupado exclusivamente pelo garotinho negro. Além disso, pode-se presumir que os elogios ao cabelo e a beleza da garotinha se repetem em outros contextos, como encontros familiares.

Gradualmente o garotinho está aprendendo que, se você é branco e tem cabelo liso você é uma pessoa boa, bonita e que recebe mais atenção do outro. A mãe, por sua vez, começa a aprender que o preconceito não está necessariamente fora de casa apenas: está em seus próprios comportamentos.


*originalmente publicado no Facebook - dia 30/08/2013

O psicólogo e a vidente

Um paciente veio me contar que começou a frequentar uma vidente. Preferia a vidente ao seu humilde psicólogo. Disse que, além dela "ser ótima", cobrava barato! Cerca de R$20,00 pela sessão. 

No exato momento em que o paciente me disse isto a vidente perdeu toda a credibilidade pra mim! Vidente que se preza não cobra R$20,00 por sessão. Aliás, vidente que se preza nem se presta a fazer este tipo de atendimento!

Há tantas maneiras de se ficar rico tendo o dom de prever o futuro, poxa.

Vidente que se preza fica em sua mansão, sossegada, após ter previsto os números da mega sena com sucesso. Se for uma vidente um pouquinho menos egoísta, empenhada no auxílio ao próximo, ela pode prever soluções concretas para alguns dos grandes males que assolam a humanidade (e ficar rica com isto de quebra, por que não?). Pode prever resultados de pesquisas científicas que estão em andamento neste exato momento (imaginem a economia de recursos!), auxiliar na resolução de intermináveis querelas diplomáticas entre países (paz mundial?).


Mas não! A vidente é pobre e cobra R$20,00 para prever detalhes dos próximos dias da vida afetiva alheia. 

Grandes poderes não trazem grandes responsabilidades, necessariamente.


*originalmente publicado no Facebook - dia 07/11/2013

Transporte público e pobreza no Brasil

Quando surge um contexto para conversas sobre transporte público no consultório (alguém que justifica seu atraso por conta do trânsito, por exemplo) e de alguma forma eu deixo escapar que também venho ao trabalho de ônibus, logo escuto de volta o seguinte: "mas o doutor não vem de carro?".


Ao mesmo tempo em que revela uma sensação de estranheza do meu interlocutor, este tipo de comentário me gera uma estranheza semelhante pois hoje em dia é relativamente fácil ter um carro, não se tratando mais de um benefício restrito à "doutores" (termo horrível a propósito, que serve apenas para acentuar uma hierarquização desnecessária nas relações humanas). Entretanto, o estigma social continua. Ao usar o transporte público não estou fazendo jus à minha suposta condição de "doutor": devo ser um psicólogo iniciante, incapaz, que precisa subir e aprender muito na vida para adquirir um carro. As caras e bocas que eu vejo com frequência no consultório durante estas conversas me sugerem isto - o estranhamento alheio diz muito.

Trocando em miúdos: transporte público é coisa de pobre. Como "pobreza" é frequentemente algo associado a "vagabundagem, incapacidade intelectual, falta de vergonha na cara" dentre outros adjetivos pejorativos, logo, justifica-se um pouquinho a existência de dúvidas sobre meus valores e habilidades profissionais. Existe uma complexa rede simbólica que ligam estes pontos.




Comentário inspirado por esta reportagem: http://oglobo.globo.com/rio/o-que-famosos-que-usam-transporte-publico-acham-do-sistema-no-rio-11937509 

*originalmente publicado no Facebook - dia 28/03/2014

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Preconceitos acadêmicos: um estudo de caso

O preconceito acadêmico é um fenômeno comum e razoavelmente compreensível. Nós simplesmente não temos tempo e recursos suficientes para nos aprofundar no estudo de todas escolas filosóficas, psicológicas, sociológicas etc., e em decorrência disso, as chances de que nós venhamos a desenvolver concepções reduzidas/simplificadas de tudo aquilo que foge aos nossos interesses mais imediatos são bastante elevadas. Soma-se à isso o fato de inúmeros fatores sócio-culturais (dentro e fora do âmbito acadêmico) se agregarem no sentido de favorecer o surgimento e a manutenção de uma espécie de "culto à autoridade", onde muito do que é dito por doutores, professores e cientistas é tomado como verdade absoluta e instantânea.

Quando alguém afirma que não gosta da Psicanálise porque ela "interpreta todos os fenômenos humanos apenas em termos de sexualidade" (ou em versão taquigráfica: pra Psicanálise "tudo é sexo!"), evidencia a formação daquilo que estou chamando de um preconceito acadêmico - no caso, uma descrição excessivamente simplificada/reduzida da teoria psicanalítica. Será que esta pessoa - nosso crítico fictício da Psicanálise - já se debruçou sobre as discussões a respeito da noção de "sexo" em Freud? Mais do que isso, será que ela tem o mínimo de interesse e ou condições (tempo e recursos principalmente) de fazer isto? Provavelmente ela construiu uma concepção simplificada da Psicanálise baseada única e exclusivamente naquilo que ouviu falar ou leu de maneira despretenciosa.¹

Por outro lado, há momentos em que esta redução/simplificação se torna um valioso recurso argumentativo, adotado de maneira consciente por acadêmicos que desejam ressaltar a "profundidade" ou relevância de uma determinada concepção em detrimento de outra - este procedimento se enquadra bem naquilo que se convencionou chamar de falácia do espantalho.
Um exemplo da argumentação falaciosa descrita acima pode ser encontrado nos momentos em que o psicólogo evolucionista Steven Pinker se propõe a criticar o behaviorismo de B.F. Skinner, simplificando ao máximo a concepção skinneriana com o intuito tornar sua concepção (a Psicologia Evolucionista) ainda mais relevante para o público. (Mais informações sobre este caso específico podem ser encontradas aqui)

A formação de preconceitos acadêmicos como os apresentados acima é recorrente no meio acadêmico e de maneira geral nenhuma concepção-a-respeito-de-alguma-coisa está imune a este fenômeno.

domingo, 13 de maio de 2012

A filosofia e a desbanalização do banal

Finalmente, chega a hora de trazer o blog à vida novamente. São vários os fatores responsáveis pelo hiato produtivo neste espaço - que durou aproximadamente um ano e meio - sendo um dos principais deles, meu maior comprometimento com o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso (também conhecido como monografia) na graduação em Psicologia. Uma vez concluído este trabalho, passei a me dedicar então à leitura de diversos autores cujos nomes já tinha simplesmente ouvido falar, mas cujas idéias me eram pouco ou nada familiares. Dentre estes autores, um deles acabou por se destacar e vem sendo responsável por uma verdadeira "revolução cognitiva" pessoal - que pode, inclusive, ser considerada como mais um dos fatores fatores motivacionais responsáveis pela ressurreição deste blog. Trata-se do filósofo americano Richard Rorty (1931-2007).

Com certeza muita coisa a respeito das descrições filosóficas desenvolvidas por Rorty irão aparecer de modo mais explícito em posts futuros. Por ora, gostaria de apresentar e discutir brevemente a concepção de filosofia de um sujeito (desta vez, um filósofo brasileiro) que conheci, justamente, através das minhas leituras e pesquisas sobre a obra de Rorty: o senhor Paulo Ghiraldelli Jr.
Paulo Ghiraldelli no programa do Jô

No meio de toda esta recente exploração filosófica me deparei com uma idéia mais específica que me chamou a atenção. Muito influenciado pela filosofia pragmatista de Rorty, Ghiraldelli oferece uma interessante resposta à um questionamento filosófico considerado fundamental: o que é filosofia?

Cada escola filosófica se propõe a responder esta questão de uma maneira diferente. Ghiraldelli por sua vez, com um elegante poder de síntese, afirma que a filosofia é a desbanalização do banal.

Tão simples, não? Mas no que implica a adoção de tal posicionamento? Afinal de contas, o que se quer dizer com desbanalizar o banal?