domingo, 13 de maio de 2012

A filosofia e a desbanalização do banal

Finalmente, chega a hora de trazer o blog à vida novamente. São vários os fatores responsáveis pelo hiato produtivo neste espaço - que durou aproximadamente um ano e meio - sendo um dos principais deles, meu maior comprometimento com o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso (também conhecido como monografia) na graduação em Psicologia. Uma vez concluído este trabalho, passei a me dedicar então à leitura de diversos autores cujos nomes já tinha simplesmente ouvido falar, mas cujas idéias me eram pouco ou nada familiares. Dentre estes autores, um deles acabou por se destacar e vem sendo responsável por uma verdadeira "revolução cognitiva" pessoal - que pode, inclusive, ser considerada como mais um dos fatores fatores motivacionais responsáveis pela ressurreição deste blog. Trata-se do filósofo americano Richard Rorty (1931-2007).

Com certeza muita coisa a respeito das descrições filosóficas desenvolvidas por Rorty irão aparecer de modo mais explícito em posts futuros. Por ora, gostaria de apresentar e discutir brevemente a concepção de filosofia de um sujeito (desta vez, um filósofo brasileiro) que conheci, justamente, através das minhas leituras e pesquisas sobre a obra de Rorty: o senhor Paulo Ghiraldelli Jr.
Paulo Ghiraldelli no programa do Jô

No meio de toda esta recente exploração filosófica me deparei com uma idéia mais específica que me chamou a atenção. Muito influenciado pela filosofia pragmatista de Rorty, Ghiraldelli oferece uma interessante resposta à um questionamento filosófico considerado fundamental: o que é filosofia?

Cada escola filosófica se propõe a responder esta questão de uma maneira diferente. Ghiraldelli por sua vez, com um elegante poder de síntese, afirma que a filosofia é a desbanalização do banal.

Tão simples, não? Mas no que implica a adoção de tal posicionamento? Afinal de contas, o que se quer dizer com desbanalizar o banal?

Antes de mais nada devemos lembra que a filosofia é uma prática cultural, e como tal, emerge da interação entre seres humanos em um determinado contexto sócio-histórico. Tendo isto em vista, Ghiraldelli inicia a sua construção do conceito de filosofia afirmando que esta é uma conversação - e nada além disso. Um processo de interação entre seres humanos que é eminentemente verbal. Segue então perguntando: o que se conversa em filosofia?

Aqueles que foram e são chamados de filósofos conversam sobre aquilo que a maioria das pessoas não acha que é importante conversar - aquilo que é considerado banal, pouco digno de nota. O próprio Ghiraldelli¹ segue dizendo:
A idéia de conversar sobre o que é banal de modo a desbanalizar o banal é a tarefa da filosofia. Em todas as épocas e em todos os grupos do Ocidente, os que foram denominados de "filósofos", pertencentes a qualquer doutrina ou escola, têm em comum exatamente isto: eles lançaram perguntas a respeito daquilo que não parece ser merecedor de receber uma pergunta. Então, o método da filosofia é este: pode-se conversar sobre tudo, mas sempre mirando o que não tem de ser mirado, na opinião da maioria.
A filosofia seria, portanto, uma conversação com método, a saber, o de criar continuamente novas descrições sobre aquilo que é considerado banal. Definida desta forma, a filosofia deixa de ser considerada um processo cultural que caminha em direção à uma "descrição última da realidade" ou que busca a elaboração de um vocabulário que "espelhe acuradamente a Verdade". Do ponto de vista advogado por Ghiraldelli, aquilo que é considerado "verdade" hoje por determinado grupo pode (e deve) vir a ser desbanalizado, com o intuito de obtermos descrições que nos permitam lidar de maneiras efetivas com os problemas filosóficos e cotidianos. Assim como William James, deveriamos portanto, considerar a noção de verdade como “aquilo que é bom para nós acreditarmos” em uma certa situação e momento histórico. A filosofia não estreita nossos laços com "o real", apenas se encarrega de criar instrumentos - descrições - mais úteis para lidarmos com o mundo².

Entretanto, não é apenas o método de desbanalização do banal que circunscreve aquilo que chamamos de filosofia. O conteúdo das narrativas filosóficas também deve ser levado em conta em nossa tentativa de traçar alguns dos limites (necessariamente arbitrários) entre esta disciplina e as demais. Vejamos novamente o que Ghiraldelli¹ nos diz a este respeito:
[A filosofia] também tem objeto, mas este tem mudado nos últimos trezentos anos. No século XVIII o objeto da filosofia foi a razão. No XIX, a história. No XX, a lógica e a linguagem.
Esta diversidade histórica de objetos na filosofia acarretou na criação de inúmeros ramos mais específicos de conversação filosófica, como por exemplo a filosofia da mente, filosofia da linguagem, filosofia da ciência, ética, ontologia, dentre outros. Ainda assim, o procedimento de desbanalização do banal permanece. Por exemplo, nos engajamos em um processo de desbanalizar o banal no momento em que começamos a nos perguntar "como é que, através da linguagem, nós, indivíduos tão distintos um dos outros, conseguimos nos fazer entender?". Utilizamos um método semelhante ao tentarmos desbanalizar (ou propôr descrições alternativas para) o próprio conceito de "linguagem". A linguagem é algo banal, mas a filosofia a desbanaliza, faz dela um problema filosófico.

Deste modo podemos, para fins didáticos, dividir a filosofia entre 1) "filosofia do cotidiano" e 2) outra que se volta para o vocabulário e questões internas do discurso filosófico. A 1) primeira lida com o processo de desbanalizar aquilo que é banal no cotidiano, como a violência, pobreza, criança, velhice, arte, etc. O cotidiano está repleto de situações banais, corriqueiras. Caberia a nós fazer filosofia e dizer algo como: "nós estamos vendo isto todos os dias, mas nós não podemos ficar vendo isto todos os dias e achar normal!".
Através do cinema, obras como "Tropa de Elite" redescrevem algumas situações cotidianas relacionadas ao crime, violência e o uso de drogas, contribuindo com o processo de desbanalização do banal.
A segunda 2) lida com o procedimento de desbanalizar o próprio discurso filosófico, o que implica na criação dos diversos ramos de conversação mais específica apresentados nos parágrafos anteriores - sendo Aristóteles (384-322 a.C.) o responsável por iniciar este trabalho de dar nomes aos campos internos da filosofia.
Ludwig Wittgenstein (1889-1951) - filósofo, autor de obras como o livro "Investigações filosóficas" - que propõe explicitamente a dissolução (desbanalização) de problemas filosóficos clássicos, tradicionais (banalizados).
De modo introdutório, estas são algumas considerações e implicações da concepção de filosofia como desbanalização do banal. Procurarei abordar outros aspectos desta concepção em posts futuros. Em tempo, recomendo o acesso ao site do próprio Paulo Ghiraldelli para maiores informações: ghiraldelli.pro.br/


¹Citações retiradas do link: http://www.sel.eesc.usp.br/informatica/graduacao/material/etica/private/Filosofia_um_guia_de_estudos.pdf
²Este ponto ilustra a relação da concepção filosófica de Ghiraldelli com o pragmatismo (passando por James, Dewey, Rorty, etc.) e o com o nominalismo filosófico.

2 comentários:

  1. Por enquanto o conceito me parece bobo. Parece uma frase de efeito que leríamos em algum livro introdutório de Filosofia para o ensino fundamental, talvez impactando algumas pessoas, mas sem realmente dizer muita coisa. Essa definição não permite distingui-la da ciência, sequer da religião, que poderia advogar para si a mesma coisa.

    Mas continuarei lendo pra ver se mudo minha opinião.

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  2. De fato, é uma síntese simples, mas acho que as sínteses simples podem estar contidas tanto em livros didáticos simples quanto no início de grandes obras rs.

    Só fico meio ressabiado por saber que o Paulo Ghigaldelli fala umas besteiras difíceis de aturar por aí. Inclusive, achei essa entrevista dele no Jô um desperdício.

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