terça-feira, 9 de março de 2010

O critério da afinidade

Quando perguntados sobre o principal motivo de preferência por uma abordagem psicólogica em detrimento de outras, a grande maioria dos estudantes de Psicologia afirmam sem pestanejar : "Gosto da abordagem X pois me identifico mais com ela." É o que chamaremos aqui de "critério da afinidade". Não há interesse em estudar e pesquisar a fundamentação teórica da abordagem escolhida, as bases epistemológicas, e muito menos verificar se ela atende à critérios mínimos de cientificidade. Aliás, falar em ciência em um curso de Psicologia é, na maioria das vezes, algo extremamente aversivo (isso é algo para um futuro post).
As três principais idéias que sustentam a escolha pelo critério da afinidade são: o relativismo epistemológico, o pensamento desejante (ou wishfull thinking) e uma série de comportamentos específicos que merecem ser agrupados e rotulados simplesmente como "preguiça".

Em primeiro lugar, o fato do método científico ser tão menosprezado e atacado pela maioria dos psicólogos, dá margem ao que chamamos de relativismo epistemológico, onde todo e qualquer conjunto de idéias tem o mesmo valor de verdade e se sustentam por si só.
A analogia clássica é a da observação de uma árvore no campo. O que veria um biólogo ao olhar pra essa árvore ? E uma criança ? Um artista ? Um poeta ? etc etc. A resposta é que cada uma dessas pessoas teria um olhar completamente diferenciado, e consequentemente, seria impossível chegar a uma só verdade do que de fato é uma árvore. Todas essas pessoas portanto, lidam com as suas próprias verdades, e chegar num consenso é algo difícil e de certa forma inútil.
A impossibilidade de se estabelecer critérios de verdade para determinadas teorias ou afirmações simplesmente impossibilita qualquer tipo de avanço no conhecimento. Não há diálogo entre diferentes idéias, pois não há como falar em refutação por exemplo; não há o que ser refutado.
O mais curioso é que, adotar uma postura relativista, implica em pensar também que a própria adoção de tal relativismo é algo relativo, sendo assim apenas uma das várias possíves "verdades". Confuso não ? Mas são falas comuns não só entre alunos, mas entre grande número de professores.

O segundo tipo de idéia responsável pela adoção do critério da afinidade seria o pensamento desejante (ou wishfull thinking), e este se encontra diretamente relacionado ao relativismo. Neste caso, a teoria ou idéia seria verdade simplesmente porque assim eu quero que seja, ou porque o fato dela me agradar e ou confortar faz com que ela seja verdade. Pensar por exemplo que minha alma sobreviverá após a morte material é algo maravilhoso, mas não se segue que, por ser maravilhoso isso é verdade. A relacão com a afirmação "Gosto da abordagem X pois me identifico mais com ela" é evidente.

O terceiro fator que chamei acima de "preguiça" pode soar simples, mas é igualmente complexo. Trata-se de uma série de comportamentos aprendidos no decorrer da vida relacionados a receber - de maneira pronta e acabada - consequências positivas ao invés de lutar para conquistá-las. Na escola por exemplo, temos uma cultura predominante de que, o que é passado pelos professores é a grande verdade e não há nada além. Não se estimula o pensamento crítico, a produção, e o ceticismo científico; tudo o que temos é mera reprodução. Não deixa de ser natural portanto, que haja uma tendência maior em se alinhar à uma abordagem psicológica específica por exemplo no contexto acadêmico da faculdade. Se há um certo domínio de uma corrente psicológica em um curso qualquer, provavelmente, esta abordagem será a mais popular entre os alunos.
O que chamamos de preguiça aqui não é uma característica íntrinseca e inerente a personalidade do sujeito, mas algo construído e moldado pelo sistema de ensino e algumas outras áreas do convívio social.

A confluência desses 3 três fatores dão origem e suporte ao tal critério da afinidade. Especificamente no campo da Psicologia, a adoção desse critério acarreta em duas terríveis consequências. Uma, do ponto de vista da produção de conhecimento (e científico) e outra do ponto de vista prático, da ética profissional.
A questão da produção de conhecimento já foi brevemente apontado acima, mas vale a pena explicitá-lo melhor. Adotar uma determinada teoria por mera afinidade implica necessariamente em mera reprodução de conhecimento, e não em novas produções. Tal fato contribui com a ainda atual dificuldade da Psicologia em se firmar como uma ciência, e faz com que grande parte das idéias psicólogicas sejam vistas com desconfiança por comunidades científicas.
Cada grupo, fechado em sua própria linha teórica, evita ao máximo discussões com pessoas de outras linhas, e quando por acaso isso ocorre, tal fato é visto como algo inútil pois não acarreta em mudança na posição de nenhum dos envolvidos. Não há um comprometimento com a produção de saber, ou com a "verdade" e sim com seu próprio conjunto de idéias. Uma analogia com o sistema religioso caíria bem aqui...

Do ponto de vista prático, utilizar determinada teoria apenas por ter afinidade, chega a ser algo anti-ético (dentro do contexto da clínica psicológica por exemplo). Se não há um profundo conhecimento de sua abordagem, e não há interesse em saber o que há de novo em pesquisas em outras áreas, corremos sério risco de oferecer um serviço de péssima qualidade. Podemos estar deixando de utilizar métodos e técnicas melhores e mais confiáveis, e com isso deixamos de
oferecer um atendimento com o máximo de qualidade dísponivel, no menor tempo possível e até com menor custo financeiro. Quem se dá mal é o cliente.

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