quarta-feira, 29 de julho de 2009

Um curso de Psicologia - Educação sem doutrinação

"Dada uma razão para fazê-lo, por superficial que seja, aquele que lê um texto científico facilmente poderá considerar as aplicações como provas em favor da teoria, razões pelas quais devemos acreditar nela. Mas os estudantes de ciência aceitam as teorias por causa da autoridade do professor e dos textos e não devido as provas. Que alternativas, que competência possuem eles ?"

Esse pequeno trecho do livro A Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas S. Kuhn me fez refletir sobre o curso de graduação de Psicologia e a maneira da qual ele é conduzido. Na verdade, a reflexão pode e deve se extender para qualquer outro curso superior e até mesmo ao ensino básico médio/fundamental, porém irei usar como exemplo aqui o curso de Psicologia, mais especificamente o curso de Psicologia da PUC Minas, do qual sou aluno.

Numa disciplina tão fragmentada como a Psicologia, é normal e necessário que o estudante ( em uma dada altura do curso ) faça sua escolha com relação a qual abordagem teórica ele irá se aprofundar, e em qual campo de atuação irá se especializar. A questão a ser levantada é : " Com base em que poderei fazer tal escolha ? ".

O que podemos observar em um curso de Psicologia como o da PUC Minas - e isso fica evidente em conversas no corredor e até mesmo conversas com professores - é que a grande maioria dos estudantes ao fim do curso, tendem a escolher a abordagem psicanalítica como modelo de atuação e de pesquisa.
Não entrarei aqui no mérito ou demérito da teoria psicanálitica, porém cabe aqui ressaltar alguns fatos identificados pela professora Ilka Ferrari ( professora da PUC Minas - Coração Eucarístico e psicanalista ) em um artigo de sua autoria :

"O currículo de um curso, com tudo o que implica do ideal de
formação nele contido e que pode ser observado nos ementários das
disciplinas, como se sabe, acaba por não refletir aquilo que realmente
acontece dentro da sala de aula, a exemplo do curso da unidade
Coração Eucarístico, que tem um currículo bem equilibrado e nele não
se nota o predomínio da psicanálise."

Aqui ela dá a entender que a grade curricular construída para o curso é adequada e abrange as várias abordagens e teorias da Psicologia, mas admite que não necessariamente isso reflete o que acontece dentro da sala de aula.
Podemos pegar como exemplo, disciplinas específicas como "Teorias do Desenvolvimento da Criança", "Teorias do Desenvolvimento do Adolescente", ou mesmo "Psicopatologia II" e observar que na ementa dessas disciplinas 80% da recomendação bibliográfica é de conteúdo psicanalítico e os outros 20% são breves citações da existência de teorias alternativas. Não podemos nos esquecer também do proselitismo feito por muitos professores, que enaltecem "sua" teoria a todo instante e denigre a imagem de qualquer outra abordagem, na maioria das vezes com críticas infudadas.

A própria professora Ilka finaliza :

"[...]o que se considera essencial,
no momento, é constatar a presença do ensino da psicanálise em
disciplinas de psicopatologia e, também, constatar que, na PUC
Minas, unidade Coração Eucarístico, realmente, a ênfase na
psicanálise parece ser maior."

Essa ênfase se extende à grande maioria das disciplinas, e boa parte dessas disciplinas são ministradas por professores psicanalistas. Provavelmente esse seja o principal motivo da ênfase psicanalítica...
Vale ressaltar que estou falando aqui da PUC MINAS e da Psicanálise, mas poderia ser qualquer outra instituição de ensino e qualquer outra abordagem teórica. Os exemplos acima citados, servem apenas para ilustrar a discussão.

Podemos começar a pensar agora na questão inicial : Com base em que poderei fazer tal escolha ?
Fica claro no exemplo da PUC Minas que a maior parte dos alunos optam pela clínica psicanalítica, e podemos agora levantar algumas das possíveis causas para escolha.
Com o predomínio de professores e de material didático relacionado a psicanálise, a grande maioria dos estudantes tendem a ficar restritos a essa abordagem, e a primeira causa a ser levantada, relaciona-se com a citação de Thomas Kuhn : "[...]os estudantes de ciência aceitam as teorias por causa da autoridade do professor e dos textos e não devido as provas. Que alternativas, que competência possuem eles ?"

Durante toda a vida escolar dos alunos ( desde o ensino fundamental ), o foco do ensino é o professor. O professor e o material didático utilizado por ele, são considerados a fonte única do saber, e nada além desse saber é necessário. Não há incentivo para uma pesquisa autônoma, para um estudo menos dirigido, e no geral, os alunos não estudam porque gostam, e sim porque devem estudar para não serem punidos pelo professor e pelos pais. A relação construída não é uma relação de prazer no conhecimento, e sim de alívio, por evitar uma punição.
Juntam-se esses e alguns outros fatores relacionados a própria cultura brasileira de não valorizar o raciocínio crítico ( merece um post a parte ), e temos um aluno "máquina de xerox" : aquele aluno que copia a matéria, utiliza as mesmas palavras do professor, e não faz nenhum tipo de reflexão crítica sobre o que está aprendendo. O foco do aluno é apenas a boa nota no final do ano, ou o diploma universitário.

Procurei exemplificar isso no campo da Psicologia, mas temos exemplos disso também no ensino fundamental, e fica aqui a sugestão de visita desse site : http://www.escolasempartido.org/ .

Também é importante ressaltar que os argumentos expostos acima não podem ser encarados como ÚNICAS causas, mas com certeza tem grande parcela de culpa nesse processo.
O ensino ( tanto médio/fundalmental quanto universitário ) não deve funcionar como uma viseira de cavalo ( ou tapa ), que limita o foco de visão da pessoa para um único horizonte. O foco do ensino deveria ser totalmente o oposto, e deveria primar pela pluralidade de horizontes, e pelo desenvolvimento da reflexão crítica.
Se fala muito que a educação é o único caminho para solução dos grandes problemas humanos, e através dessa exposição, podemos ver que tal afirmativa não está muito longe da verdade.



" Eu sou mesmo responsável pela minha formação ? "






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Referências Bibliográficas :
Kuhn, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva Ed.9, 2007
Ferrari, Ilka. Revista Mal-Estar e Subjetividade / Fortaleza / V. IV / N. 2 / P. 372 - 391 / SET. 2004 - Os Cursos de Psicologia de Minas Gerais e a presença da Psicanálise na disciplina Psicopatologia.

3 comentários:

  1. Ramon, sou Filippe Gradisse e atualmente estou no 9º Período (Turno Noite - ênfase clínica) do curso de Psicologia da PUC Minas Coreu. Faço minhas as suas palavras. Pena que essa reflexão, acontece muitas vezes somente nos burburinhos dos corredores de Psicologia ou com Professores mais abertos às problematizações sobre o nosso curso de Psicologia. Recentemente participei da mesa que em que você esteve presente, na IV semana da Diversidade em Psicologia (23 a 26 de Abril de 2012) e constatei o quão necessário é a insistência pela mudança de postura dos alunos em relação à própria formação. Parece-me que poucos estão interessados em refletir sobre essa questão, preocupados que estamos em apresentar resultados de atendimentos clínicos em detrimento de mesas que visem à discussão dessa posição crítica. Seria interessante uma semana da diversidade com a temática: " Eu sou mesmo responsável pela minha formação ? Abraços para ti!!!! Obrigado pelas contribuições!!!!

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    1. Filippe, é uma honra e um prazer muito grande ler os seus comentários!

      Eu mesmo nem lembrava que tinha escrito este texto! Já se fazem praticamente 3 anos... Mas é interessante notar como esta problemática já se fazia presente em meu repertório desde os primórdios da minha graduação.

      Pretendo fazer uma postagem atualizada sobre este tema, inspirada pela apresentação na PUC que você assistiu.

      O blog está abandonado desde meados de 2010! Acho que chegou a hora de ressucitá-lo rs!

      Abraços e espero que nós possamos trocar mais idéias.

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    2. Filippe responde: Com certeza!!!

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